Se pudesse, escolheria o caminho mais fácil


Não teria gritado no útero da minha mãe. teria requerido voltar àquele lugar que era quente e manso. teria me entregado menos às situações mais banais que são a vida remoendo nos cantos. teria preferido não encontrar com você na saída do metrô. teria optado por me fazer de desentendido quando te vi correndo em direção a mim. fingir um desmaio. andar em meio à multidão que faz fila pra passar na catraca. teria evitado o toque da minha mão na sua coxa. teria evitado passear pelas ruas do centro da cidade (elas me doem tanto agora). teria evitado te olhar no buraco dos olhos permanentemente. teria me espreguiçado apenas sobre mim mesmo, quando na verdade me esparramei pela sua pele vulcânica e cheia de feridas. você estava machucado, eu também. a vida é dos que se encontram sem grandes pretensões. eu nunca escolhi os caminhos mais fáceis. e de repente você. se eu soubesse, como numa premonição, de toda a dor, eu teria evitado. a intimidade que lhe concedi porque achava que devia. teria evitado esbarrar com você pelas ruas que não foram nossas mas que agora presenciam a frieza que há entre mim e você. as ruas, os postes, os fios com seus geradores de energia, o concreto refeito muitas e muitas vezes, as lojas de conveniência, todos presenciam nosso encontro cheio de indiferença. eu teria evitado chorar na sua frente, mostrando humanidade. eu teria evitado desnudar minha alma alarmada pela ideia da permanência. mas eu nunca fui das sensações e presságios; ainda assim, segui em frente. eu poderia ter evitado sentir cada arrepio na ponta da espinha quando você dizia que precisava ir. eu poderia ter ido. evitado as guerras pelos espaços concedidos, pelo que estava na goela e saía abruptamente: eu teria evitado me ferir se tivesse expulsado você de dentro de mim. as grandes revoluções sempre existiram pra colocar em pauta a necessidade de se rebelar contra aquilo que era sistemático, rígido. eu teria voltado atrás e não teria sido uma delas. eu teria evitado ser afetado pela rebelião que você você foi pra mim. mas eu nunca evitei que a vida me atingisse feito um soco. que o amor me segurasse pelos braços e me obrigasse a aprender e eu aprendi tanto. por ter tentado demais, falado demais e ter me espremido dentro de uma caixa pequena e escura. a vida me exigiu maturidade pra seguir em frente mesmo sem saber ou entender por quê. eu teria evitado a dor de ver você indo embora antes mesmo de mim. porque quando eu fui, você só se conformou ao ato abaixando a cabeça e, passivamente, me entregando o aval de que tudo havia acabado. porque não previ o fim e mesmo assim insistia na dor cotidiana de estar ao seu lado, tentando inutilmente receber uma espécie de amor. porque eu não gritei quando vim ao mundo. porque você não gritou quando falei do fim. porque a vida não espera ninguém. você sempre esteve apressado.

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